sábado, 23 de julho de 2016

série contos - MOINHO

Hoje vou compartilhar com vocês meu primeiro conto publicado MOINHO, pela Editora Andross. O conto faz parte da antologia "Névoa" que reúne diversos autores que desenvolveram seus contos sobre o tema sobrenatural. Eu procurei dentro do tema um lugar real onde as pessoas pudessem se imaginar. Por isso meu conto se passa no moinho Povos Unidos na cidade de Holambra. Espero que gostem do conto e deixem seus comentários.


MOINHO - Clóvis M. Fajardo

            Esse é meu relato final sobre os eventos do moinho de vento da cidade de Holambra no interior do Estado de São Paulo. Trata-se do maior moinho da América Latina batizado com o nome de ‘Povos Unidos’. Uma réplica fiel dos moinhos holandeses. O moinho que antes foi um importante ponto turístico, agora se tornou uma maldição para a cidade de Holambra e municípios vizinhos. Ninguém mais entrou e subiu outra vez no mirante, até que eu e Sérgio conseguimos autorização junto à prefeitura. Como jornalistas da revista “Sobrenatural”, nós viemos para a cidade há quinze dias atrás, chegamos pela madrugada e nos hospedamos no hotel. Não havia nada de estranho naquela pacata cidade turística. Sérgio parecia muito feliz com a oportunidade que tínhamos de ter nossa matéria como capa da revista do mês de agosto. Ele sabia que eu estava com medo e brincava dizendo “Edson, será que você vai conhecer o rostinho da sua filha, ou essa será nossa última matéria?”. Sérgio sabia que para mim era muito importante estar ao lado de minha esposa naquele momento, ela que já tinha desistido de ter filhos depois que 3 médicos confirmaram que ela era estéril. Deus me abençoou e eu voltei para minha casa na véspera do parto da minha esposa, e passei alguns dias junto delas. Infelizmente, hoje rezamos a missa de 7º dia do falecimento de Sérgio, que morreu no hospital com infecção generalizada por uma bactéria desconhecida, resultado direto da nossa ousada investigação do moinho ‘Povos Unidos’. Eu havia prometido a minha esposa que nunca mais retornaria para Holambra, mas um dever para com Sérgio me fez retornar.
Aquele dia foi extremamente cansativo. Somente depois de uma manhã inteira atrás de relatos e informações sobre a lenda que estava se tornando em volta do moinho é que fomos para o parque conhecer de perto o objeto central de nossa matéria. O local parecia abandonado, a prefeitura não mais aparava a grama do imenso jardim, a portaria estava coberta de poeira e marcas de vandalismo. O tradicional casal de bonecos holandeses estava quebrado com fortes marcas pretas de terra. Estavam sem cabeças e braços. A polícia local se recusava em nos dar mais informações, mas confirmava o desaparecimento de mais de vinte pessoas em dois meses.
            A madrugada já seria bastante aterrorizante, porque a rua Maurício de Nassau estava sem iluminação e era cercada de árvores ao lado do lago na Praça Vitória Régia. As nuvens no céu cobriam a lua, que raras vezes aparecia para projetar sombras no nosso caminho. Para ajudar, uma garoa começou trazendo com ela um frio repentino. O vento forte soprava como um lobo uivando. Os galhos se agitavam bravamente e eu pensava seriamente em deixar para outro dia. Não podíamos ver o moinho, mas eu já podia imaginá-lo girando, moendo alguém como um saco de grãos. O vento estava aterrorizante, podia derrubar um homem e nos forçou a andarmos mais rápido. Demoramos cerca de vinte minutos até o portal onde nos deparamos com o único ser vivo até o momento. Um cão, um pastor-alemão imenso, latia bravamente nos intimidando a não continuarmos a jornada. O cão parou de repente assustado e fugiu logo que ouviu um grito de desespero vindo do moinho. Se havia alguma coisa lá dentro, aquela seria nossa chance de ouro de descobrir. Paramos na porta e tive certeza de que não estávamos sozinhos. Um vulto correu silenciosamente para dentro enquanto a porta permanecia entreaberta e a corrente no chão. Sérgio me olhou apavorado, fazendo o sinal da cruz. Entramos espremidos na brecha aberta do pesado portão e logo fomos recebidos pelo desagradável odor fétido de cadáveres. Tentamos filtrar o cheiro colocando um lenço sobre o nariz e continuamos a vasculhar o local com o auxílio das lanternas de Led. Enquanto iluminava o chão, Sérgio encontrava diversos pertences pessoais, provavelmente das pessoas desaparecidas na cidade. Muitos documentos no chão, camisetas rasgadas manchadas de sangue e calçados empilhados num canto. Provavelmente aquele local estava sendo usado como refúgio de um assassino. O criminoso deveria estar escondendo os corpos naquele moinho. Tivemos certeza disso quando um raio cruzou a rua iluminando o moinho. Ficamos paralisados ao vermos algumas pessoas penduradas como carnes num frigorífico. Mas o  odor forte não vinha daqueles corpos pendurados, havia mais alguma coisa morta naquele moinho. O facho de luz da lanterna de Sérgio passeava pelas paredes do moinho procurando o autor daquela tenebrosa cena. Por um momento senti algo se aproximar de mim, uma respiração forte com extremo mau hálito. Sérgio apontou a luz para mim, e o vulto simplesmente sumiu. Então num instante, quando apontou para o teto, vimos pela primeira vez uma criatura na parede. Senti um calafrio que percorreu minha espinha. Como uma enorme aranha, com o corpo todo peludo e olhos brilhantes, a criatura correu pelas paredes como um grande inseto e se escondeu silenciosamente nas sombras. Tentei voltar lentamente para a porta, mas por um momento fiquei petrificado, imóvel, com os olhos cravados na imensa sombra que se aproximava de Sérgio. A criatura nas sombras não abria os olhos, mas ofegava fortemente e rosnava como um grande felino. Para nosso total espanto, ficou de pé como um humano. Eu não queria saber de mais nada; tentei fugir no mesmo instante e corri para fora. Sérgio veio logo atrás desorientado e bateu com o rosto num dos corpos pendurados. Caiu desnorteado deixando rolar sua lanterna que veio parar perto de mim. A lanterna iluminou um canto isolado onde vi um corpo triturado na roda do moinho e o sangue escorrendo como o suco de uma fruta esmagada. Fiquei extremamente horrorizado, mas não tive tempo de reagir. A criatura pulou sobre as costas de Sérgio como um animal sobre sua presa. “Fuja Edson! Volte agora para sua esposa.” – Sérgio me disse debaixo das garras da criatura. Eu ia fugir e deixar Sérgio, mas não pude, não quando ouvi seus gritos de dor latejante, iguais aos que ouvíamos do lado de fora do moinho. Cada segundo parecia aumentar o ritmo de seus batimentos cardíacos, que eu podia ouvir mesmo estando longe. Não pude deixá-lo lá. Contive o fôlego e voltei determinado. Com a lanterna atingi a cabeça da criatura que saltou pelas paredes sumindo outra vez nas trevas. Arrastei Sérgio para o lado de fora e o deitei na grama molhada. Mostrou-me seu abdômen ferido por garras e um sangramento como de quem foi ferido por facas. Fomos para o hospital onde ele foi medicado e passou a noite em observação. Procurei a polícia relatando o ocorrido, dizendo que o que feriu Sérgio no moinho certamente não era humano, apesar do tamanho. O delegado não me deu muito crédito, mas prometeu retornar na manhã seguinte para averiguar o caso.
Assim fizemos, e para nossa surpresa a porta do moinho estava trancada. Lembrei que estava com a chave que nem cheguei a usar. A luz da manhã ajudou bastante e reviramos o local sem encontrar nada. Simplesmente tudo havia sumido do local, alguém que estava tentado encobrir o caso. Eu tinha certeza de que encontraríamos os vestígios, os corpos, o sangue, ou pelo menos a lanterna. Estávamos passando a corrente quando um pressentimento me fez retornar para dentro do moinho. Eu precisava provar que não estávamos loucos. O delegado não entendeu nada, até que ele mesmo viu o corpo no chão e registrou tudo na ocorrência. Ferido na cabeça, com o abdômen aberto com feridas semelhantes às de Sérgio, jazia no canto num canto o pastor-alemão. O delegado registrou a ocorrência, mas não deu crédito a minha versão. Retornei dali para o hospital na esperança de contar tudo para Sérgio. Mas deixei o hospital com a triste notícia da morte de Sérgio.

Independente do que seja aquela criatura que nos atacou, eu voltarei lá e descobrirei o que ocasionou a morte de Sérgio. Talvez eu nunca mais volte para dizer o que aconteceu, mas certamente não morrerei com dúvida de que tudo aquilo foi um delírio da minha mente.


Gostou? Então deixe seus comentários,e m breve mais um conto para você.